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"Disseram-me: verás quando tiveres cinqüenta anos. Tenho cinqüenta anos: não vi nada". Erik Satie
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29.4.08
As modas dos homens - 2
Dos bigodes
Argh, mil vezes argh! Os mais modernos entre os mega-triple-modernos usam bigodes. Eles evoluíram do visual barba-roda-de-samba-do-Sobrenatural e ousam desafiar as raias do bom gosto usando o bigodão Magnum, aquela ode visual ao portuga do botequim. Me faz lembrar também as pornochanchadas e os leather boys de bigodão tipo Freddie Mercury. Aos bigodes nao abro excessão. Odeio todos, sou contra e pronto!
cruz credo!
socorro!
3:20 PM
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28.4.08
As modas dos homens - 1
Não estou falando de moda de roupa, da qual é quase impossível fugir, porque o que está disponível no mercado é o que os caras decidiram que todo mundo vai usar. Vc pode até desenhar sua propria roupa, coisa rara nos dias de hoje. Mas se quiser comprar jeans, vai comprar o corte da moda, na Renner ou na Diesel. Então vamos deixar isso pra lá. To aqui pensando nos cabelos, nas barbas, nos acessórios, naquilo que é possível escolher. Pensando nos seres do sexo oposto que observo atentamente, sempre, por esporte.
Das barbas e cavanhaques
Sou suspeita: odeio barba. Acho anti-higiênico. Acho que esconde o cara. Pra não ser totalmente radical, abro uma excessão para aquela do dom joaozinho príncipe, entendeu? Mas adoro uma carinha lisa, bem lisinha. Me gustan los efebos, os imberbes, os glabros.
As barbas por fazer só me servem se forem macias e tiverem passado da fase ralador. Nada mais antipático com uma mulher do que oferecer a ela um peeling mecânico a cada chamego.
Che Guevaras barbudos, cabeludos desgrenhados, camiseta furada e chinelo. Clochard foi moda, lembra, Gel? Visual comunista-movimento-estudantil. Na PUC, faculdade mais cara de todas, é o figurino mais comum. Pobre não anda largado, não gosta de visual de mendigo. Mas jovem rico, gosta. Na praia de Ipanema também predomina esse tipo favela-chique. Assim como em Santa Teresa, templo mór da hipongagem. Os barbudos são seres permanentes no mundo, sempre tem um deles next door.
Os cavanhaques saíram da moda, definitivamente. Acho que os pagodeiros acabaram com o gosto pelo visual latin lover que alguns rapazes cultivaram recentemente. Uma pena! Eu adoro um cavanhaquinho, se for rente, macio e cheiroso. E com uns fios dourados ou ruivos. Capricho puro...
As barbas de Quaker, aquelas sem bigode, são fortes candidatas a barbas mais feias do mundo. Elas enfeiam todos os homens, além de todos ficarem com cara de pirata bêbado de filme da Disney. Brincadeira visual de péssimo gosto.
los hermanos e suas barbas, filhos da PUC
a mais feia de todas!
5:36 PM
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23.4.08
Quem está de ronda é São Jorge/ Deixa São Jorge rondá
Um dia eu comprei uma imagem de São Jorge pra um cenário de um show. Quando passou o show, achei hiper fofo mantê-lo na minha sala, num lugarzinho junto a outros objetos queridos pra mim. Simpatizo com ele, mas não tenho fé religiosa nenhuma. Um dia olhei pra ele com carinho, mudei de lugar, botei em cima do piano e conversei de leve: as coisas estão assim, estão assado, tenho tantas coisas a realizar, tantos desejos, me ajuda!
Um dia acendi uma vela pra ele, no outro um incenso. Num outro eu acordei cheia de raiva e reclamei logo com ele, desabafando: Pô, São Jorge, qualé? To numa M federal, dá uma força aí. Assim não ta justo! To na mó ralação e nada?
Mania de músico. Nós nos achamos guerreiros, bradamos por justiça à nossa causa. Alguns de nós se identificam com figuras que morreram por uma verdade. E o samba? O samba se acha. O samba se sente perto do céu. Tem um clima religioso, essa proximidade dos batuques, dos terreiros, essa ascendência sobre o povo, o poder de levantar as massas. O samba é um tipo de deus. Eu sou cantora, eu amo samba. Humildemente canto samba. Aprendo todos os dias ávidamente. Estudo, escuto com muita atenção, há muitos anos. Respeito.
Semana de São Jorge. De repente, depois de um mormaço daqueles, cinco shows na semana, de samba, um aparecendo após o outro, um telefonema, um email: ta ocupada? Pode? Gravação de jingle, proposta esperada há muito tempo, casa legal, público honesto, som maneiro, músicos queridos felizes e por perto, perspectiva, trabalho. Estranhíssimamente tudo desenrolou de uma vez em uma semana, para acontecer exatamente na semana de São Jorge. Logo ele, com quem eu me queixei.
A imagem dele quebrou, aquela com a qual conversei. Espatifou, lixo. Êpa! Arrumei outra na casa da minha mãe: leva, pode levar. Trouxe. Acendi uma vela pra ele agora, agradecendo de coração. Rezei. Me emocionei, vestida com as roupas e as armas.
Oração a São Jorge
Eu andarei vestido e armado com as armas de São Jorge para que meus inimigos, tendo pés não me alcancem, tendo mãos não me peguem, tendo olhos não me vejam, e nem em pensamentos eles possam me fazer mal.
Armas de fogo o meu corpo não alcançarão, facas e lanças se quebrem sem o meu corpo tocar, cordas e correntes se arrebentem sem o meu corpo amarrar.
Ogunhê Ogum!
Essa imagem eu tenho na parede da minha casa, há muitos anos. Ganhei de um cara que nunca conheci, um fã. Mandou pelo correio pq meu signo é dragão. Fofo!
7:12 AM
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18.4.08
prisioneira da miséria que é ser artista no brasil
Estou enjaulada nesta condição de artista carioca. Estou prisioneira desta miséria que é ser (boa) artista no Brasil. Nasci no Rio de Janeiro, em Ipanema. Estudei aqui, trabalhei aqui, aprendi a viver e a ser alguém aqui, construí a minha carreira aqui. Sendo boa cantora, tendo personalidade artística e alguma cultura, tendo tido experiências múltiplas na música e na vida, tendo ralado e galgado degraus, tradicionais ou não, da carreira, do boteco ao Canecão, tendo me preparado pra exercer a minha profissão, tendo trabalhado ao lado de grandes e reconhecidos músicos deste país, tendo tido público, belas críticas, prêmios... Ainda assim não consigo viver de cantar na cidade onde nasci. Se eu quisesse ser mais artista que cantora, se eu quisesse mais o clima que a carreira, se eu tivesse gana de fama, talvez ainda pudesse esperar ganhar dinheiro. Desconfio que já ganhei o quinhão que cabe aos - quase todos - bons artistas profissionais brasileiros: prestígio. Sem fama e sem grana. Mas pra mim, prestígio é um chocolate recheado de coco.
Peço perdão ao rebanho d’O Segredo, mas cansei de repetir aos ventos e de visualizar minha agenda e minha platéia lotadas, muito público pagante sem desconto, minha conta bancária no azul, meus músicos com boas condições de trabalho, os discos tocando no radio e na TV, eu não precisando trabalhar com outra coisa pra pagar o aluguel, com tempo e cabeça pra me dedicar, pra estudar, podendo investir no meu trabalho e formação, pagando, com folga, todas as minhas contas com meu trabalho musical: bom, maduro, bem feito, com personalidade, cada vez melhor, ascendente. Projetei, mas acho que O Segredo não pega em músico brasileiro. Nos cariocas, certamente não pega. Se pega, dá prestígio. Grana não dá.
Depois de ter ganhado o Prêmio Tim ao lado dos meus colegas, de ter cantado no Ano do Brasil na França, de ter feito milhares de shows, pra milhões de pessoas, ao lado dos melhores músicos deste país, ainda acontece de eu não conseguir pagar minhas contas com música. Canto, sempre, sim. Fiz 24 shows nos últimos três meses. Oito por mês, dois por semana. Não é muito, mas não é pouco. Semana que vem tenho cinco shows, tenho certeza de que servirão para pagar os taxis que usarei para ir cantar. Aluguel? xiiii ... Nem pensar numa loucura dessas, menina! Onde já se viu pagar aluguel cantando? Não tem onde colocar músicos nesta cidade, as casas não querem música. Acabou. Não estou falando da Lapa, esse Baixo Gávea universal embalado a samba. Estou falando de todo o resto da cidade e de todos os outros músicos. Pela minha cabeça passa um pensamento de terror: Se no Rio é assim, imagina fora do Rio...
Onde está a rede que torna possível a atividade profissional do músico, ao lado da laia de técnicos de som, roadies, iluminadores? Estão todos parados? Como pode viver um artista sem desaguar sua arte? Pra poder criar mais, pra discutir, pra pensar, pra praticar, pra não parar de aprender. Experimentar: fazer fundamental pro artista. Como ter resultados sem praticar? Como? Como ser músico sem ter uma cena onde se inserir? A Lapa está cheia de sambistas acidentais por isso: porque há uma cena à qual pertencer.
Não quero reger o cordão dos ressentidos, não estou despeitada. Não considero a minha carreira um fracasso artístico, pelo contrário. Mas é um fracasso financeiro, enraizado na podridão deste país de ladrões. Como muitas outras carreiras, muitas carreiras de grandes talentos que conheço. Tenho ódio de sentir novamente este nó na garganta, essa infelicidade, essa sensação de incompetência, essa impotência. Tenho ódio da sensação de corda no pescoço, de beco-sem-saída. Tenho ódio de ver meus amigos-puta-músicos atrasando a mensalidade da escola dos filhos e tendo que ir negociar: “...é que eu sou músico...”. Meu cartão de crédito estourou, a moça ligou: “...a senhora é cantora, né? E não tem um emprego?...” Tenho ódio de escrever pra Europa pra sondar trabalho, pra morar em outra merda de cidade onde não quero morar, longe da minha casa, pra um dia na vida ter o prazer de viver do meu trabalho sem essa espada na cabeça. Não me superestimo, não quero uma limusine preta e 40 toalhas brancas. Quero trabalhar e ganhar por isso, como todo mundo. Tenho desprezo por quem pergunta: “Você só canta ou você também trabalha?” Tenho minha historia, meu roteiro, meu sucesso aqui. Quero ter um presente maravilhoso aqui. Quero poder ter um futuro brilhante, se for o caso. Quero respeito, mereço respeito, quero ser paga pelo meu trabalho. To prontinha pra trabalhar, tinindo, trincando. Quero ter onde trabalhar. Já joguei um monte de idéias no lixo por descrença. Já deixei de fazer milhares de coisas por falta total de recursos. Just like that. Foda-se, quem se importa? Eu me importo.
Mas eu não paro de trabalhar, não paro. Trabalho do jeito que for possível, sempre, porque antes de qualquer coisa eu sou cantora, esse é o meu trabalho. Esse é meu alimento e meu produto essencial: música. Tenho feito isso quase de graça e, se for necessário, continuarei fazendo. Mas sei que, neste mundo onde tudo se vende, eu deveria poder fazer música e ganhar um dinheiro justo sem ser a maior estrela do país. Eu e milhares de artistas brasileiros comuns, profissionais, que quase vivem do que fazem, quase pagam as contas, quase vão à falência, quase têm que largar tudo e ir trabalhar em outra coisa, todos os dias. Pra ter uma casa pra morar, uma família, uma vida.
Minha solidariedade aos colegas: que a jornada lhes seja prazerosa como a minha. E muito mais bem remunerada!
você só canta ou você também trabalha?
10:38 PM
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12.4.08
I believe I can fly
Qdo estacionei a bike no bicicletário em frente ao Coqueirão*, numa tarde azulzíssima de sábado, praia esvaziando, o sol esfriando, não pude deixar de reparar na pena grudada no cabo do freio. Uma peninha amarelinha e branca. Na hora eu me dei conta de que a peninha pertence aos canários cuja gaiola fica junto das bikes, no prédio onde moro.
Me deu uma pena (ops) danada, pq a peninha grudou na bike e quem está voando por eles sou eu, enquanto eles estão lá, dentro daquela micro gaiola... sinceramente, me deu vontade de chorar, porque eles nao sabem, literalmente, o que estão perdendo..
birds fly over the rainbow, why then, oh, why can't I?
7:58 PM
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3.4.08
(des)Encantada
Assisti ao filme Encantada, produção Disney. Por maldade da madrasta, a princesinha é empurrada pra fora do mundo do desenho animado, dos animais que falam e dos príncipes montados em cavalos brancos para o mundo real, em película, com atores e locações reais, onde, segundo a mesma madrasta, não há “viveram felizes para sempre”. A mocinha cai do desenho e sai num bueiro em plena Times Square. Anda por NY desavisadamente romântica, cantando e dançando no Central Park, arrebanhando a simpatia de todos, amiga dos animais, crédula e gente fina, deixando por onde passa um rastro irresistível de fofura. Na hora H, acaba se apaixonando por um homem do mundo real e acha o príncipe um megachato sem assunto, já que a única coisa que interessa a ele é o “viver feliz pra sempre”. Já o cara do mundo real se encanta com aquela mocinha que acha que a coisa mais importante da vida é um beijo de amor.
Acho que tem muita gente que busca esse “viveram felizes para sempre”, independentemente do potencial real de felicidade que uma relação apresenta. Para muitas pessoas, não todas, estar casada, ter alguém pra chamar de seu, ter uma casa montada, mesa posta, mesmo que a relação seja ruim, é tudo na vida. Essa opção não é privilégio feminino. Mulheres convivem habitualmente com sapos esperando que num belo dia eles virem príncipes. Enquanto isso, reclamam. Os homens também fazem muito isso, já que muitos casam com a aparência física das mulheres, que muda com o tempo. Outros casam porque está na hora de casar, de se adiantar. Não sei se estão errados ou certos e se, no fundo, o que importa é ter alguém ao seu lado e pronto. A idade chega, os encantos físicos se esvaem e a gente entra na fase “invisível”. Outros casam por afinidades e amor, por quererem estar ao lado daquela pessoa e viver a vida com ela. Uns conseguem.
Não concluo nada, não sei o que é certo, não sei nem se as relações são possíveis. Pode ser que eu esteja azeda, mas tenho quase certeza de que os formatos tradicionais de relacionamento enjaulam as pessoas, são antinaturais, encarcerantes e tediosos. Ou então eu sou uma romântica irrecuperável que não suporta as cores do mundo real, o dia-a-dia, a rotina, a passagem do tempo, a intimidade, a desglamurização do outro. Talvez eu só esteja zangada porque não existe essa de ser feliz pra sempre...
happily ever after
4:15 PM
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